Jornada de trabalho, cidadania e conhecimento livre


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Um tópico para debate.

Partindo do entendimento que não teremos mudanças significativas em questões de conhecimento livre sem transformar as relações sistêmicas que delimitam as condições atuais de uso e produção de conhecimento. Cabe-nos perguntar:

A redução da jornada de trabalho é uma bandeira fundamental do conhecimento livre ?

O conhecimento livre não é restrito nem em uso, nem em produção, ao voluntariado e às ações de cidadania. Pelo contrário, a participação de agentes remunerados, tanto públicos como privados, é essencial para tais.

Contudo, basta observar a dinâmica desse uso e produção para entender que o tempo livre, se não suficiente, é necessário e fundamental, pelo seu impacto direto e pelo seu papel de multiplicação do impacto das contribuições remuneradas.

Dados Abertos, Wikipédia, Software Livre, Ciência Cidadã. Todas as grandes empreitadas do conhecimento livre dependem fundamentalmente de comunidades dedicando tempo livre à seu uso e produção.

Ademais, o tempo livre contribui à participação em atividades de educação - aberta ou não - para aprimoramento pessoal, o que conduz a uma maior base de participantes ativos na sociedade do conhecimento.

O Brasil atualmente tem uma jornada de trabalho de 44 horas semanais, mais dura mesmo que o “9 to 5” estadunidense instituído pela FLSA. Se comparado com a Europa, o contraste é ainda pior: no outro extremo, a França tem uma jornada de 35 horas desde o ano 2000.

A situação não me parece mudar pesando-se aí diferenças dos modelos. Por exemplo, enquanto o Brasil garante mais férias que os EUA, lá os intervalos de almoço contam como horas trabalhadas. Diferenças de infra-estrutura de transporte e moradia, em geral, significam que o brasileiro faz horas e horas extras em deslocamento em comparação.

Isso tem um impacto direto tanto na capacidade intelectual dos brasileiros - menos tempo para cuidar dos filhos, menos tempo para estudar - como na sua disposição a engajamento cidadão - que requer tempo e motivação, além de capacitação. O impacto é em dobro, portanto, quando se trata do ecossistema de conhecimento livre.

Eu sugiro assim que comecemos a discutir como abordar esse tema. Com a comunidade, com políticos, para encontrar soluções que impactem concreta e amplamente a sociedade.

Não se trata aí apenas de leis trabalhistas mais favoráveis ao trabalhador, como a evidente redução das horas máximas, mas também de maior flexibilidade para negociar jornadas de trabalho menores quando o empregador tiver vantagem nisso.

No longo prazo, e para mudanças definitivas, o que pudermos apoiar e influenciar sociedade e políticos nesse sentido pode ter mais impacto que qualquer projeto específico que avancemos.